Aos 35 anos, o jornalista campinense Gil Campos tem um extenso currículo, com atuação desde a extinta Gazeta do Sertão, passando pelo Diário da Borborema, Jornal de Verdade – da rádio Caturité – e Jornal da Paraíba, apenas para citar os veículos mais conhecidos. Em 1995, chegou a ser indicado ao Prêmio Esso de Jornalismo, com a reportagem “Mata-se Jornalista... Paga-se Bem”. A partir de 1997, já em São Paulo, passa a atuar em vários jornais, como a Tribuna de Guarulhos. Mas não é, certamente, a vasta experiência o que mais se destaca na carreira de Gil Campos, e sim a grandeza de sua paixão incondicional pelo Jornalismo. Hoje, o jornalista vive em São Paulo, onde é editor de um jornal em Guarulhos e assessor de imprensa de um órgão público. Não por opção: precisou deixar Campina Grande “como se fosse um bandido, para não ser morto pela polícia”, cujos desmandos de alguns membros ousou denunciar. Nessa entrevista, ele conta um pouco de sua história. No fim, uma lição: ainda vale a pena exercer Jornalismo com ideal.
Jornalismo Paraibano: Onde começou sua carreira?
Minha paixão pelo Jornalismo teve início ainda na infância. Aos nove anos já escrevia crônicas para o suplemento DB Infantil do Diário da Borborema, que circulava aos sábados e era coordenado pela minha grande amiga, a jornalista Ruth Morais. Ia entregar meu material na redação e ficava vislumbrado com aquela grande sala cheia de máquinas de escrever, diagramação, fotografia e muita agitação. Aquilo era um mundo novo e apaixonante, que eu estava conhecendo.
Em 1989 entrei na Faculdade de Comunicação Social da UEPB. Estava realizando um sonho. Naquele período, havia o Jornal de Pauta, coordenado pelo professor Aécio Diniz e que circulava, semanalmente, no Diário da Borborema. Era uma loucura. Os estudantes participavam, faziam pautas. A faculdade tinha uma outra veia de produção.
Como não podia ficar de fora, entrei no Jornal de Pauta. Mas, entrei numa verdadeira confusão quando escrevi uma reportagem sobre o Alcorão, onde considerava o Islamismo uma “religião fanática”. Havia um senhor árabe, que vendia chapéus na “rodoviária velha”, que me fez sair correndo de sua loja com um guarda-chuva na mão. Passei por uma forte pressão da comunidade árabe na Paraíba. O DB e o Jornal de Pauta receberam uma extensa correspondência bilíngüe (em árabe e em português) do Centro Cultural Islâmico de Recife, praticamente pedindo minha cabeça.
Aécio me chamou urgente em sua sala na faculdade, pois ele era coordenador do curso, e disse que eu não mais iria fazer parte do Jornal de Pauta, devido às repercussões de minhas reportagens. Mas, que eu estivesse pronto para no outro dia ir fazer um teste no Diário da Borborema para ser repórter. Fui aprovado. Não esqueço nunca o dia em que fui pegar minha carteira de trabalho assinada. E seu Olinda (já falecido), chefe do RH dos Diários Associados, me falou: “A partir de agora, você faz parte da família Assis Chateaubriand”. Não pensei duas vezes: larguei o emprego de caixa do antigo Banorte, que havia conseguido graças ao esforço (e para decepção) de meu pai.
JP: Como chegou à editoria de policial?
Dizem que você nunca escolhe a área policial para atuar, mas é jogado nela. Comigo foi assim também. Em uma semana no DB, o editor me disse que eu estaria de plantão no domingo na área policial com o repórter Vanildo Silva, pois eu iria ficar em seu lugar durante as férias, mas depois retornaria para a reportagem de cidades ou mesmo esportes. Nunca mais saí da área policial.
No domingo, meu primeiro caso: um corpo de mulher encontrado na BR-230, saída para João Pessoa. Fui com Vanildo à UML e o cadáver estava lá, na mesa de necropsia, todo machucado. Gravei para o resto de minha vida aquele rosto; era uma menina morena e bonita.
Depois fui para a Central de Polícia e tinha um caso de desaparecimento, de uma moça com as mesmas características do corpo que vi no UML. Fui em sua residência, fiquei sabendo que ela havia saído com o namorado na noite anterior e não mais tinha retornado. Quando vi sua foto, pirei. Era ela. Não tivemos – nem eu e nem Vanildo – coragem de dizer à família. Fomos atrás do crime. Na segunda-feira o jornal circulou com a manchete da menina que tinha sido jogada do carro pelo namorado, por ter se negado a ir ao motel. Pela primeira vez, vibrei, junto com Vanildo, por termos conseguido desvendar um assassinato antes da própria polícia.
Na verdade, meu fascínio pela área policial começou na década de 80, quando via nas capas do DB as fotos dos cadáveres, vítimas do Esquadrão da Morte, o “Mão Branca”. Eu era criança, mas meus olhos brilhavam ao pegar o jornal, não pelos cadáveres em si, mas pela reportagem policial. Depois que comecei a atuar na profissão, tive contato com vários ex-policiais que conhecia pelos jornais daquela época, comecei a escrever um livro sobre o caso Mão Branca, mas parei. Pretendo um dia terminar. Tenho muito material a respeito.
Em novembro completo 17 anos como jornalista e nunca me afastei da área policial, uma verdadeira escola para qualquer estudante ou recém-formado em Comunicação. A área policial nos dá a verdadeira dimensão dos problemas sociais, da violência, da corrupção, da tortura, da ineficiência policial, dos interesses particulares na elucidação de um crime. A reportagem policial já foi considerada o “esgoto” do Jornalismo. Os preconceitos, até dos próprios colegas, existem, mas você nunca mais será o mesmo jornalista depois de atuar na área criminal.
JP: É comum repórteres que fazem a cobertura policial tornarem-se meros repetidores de boletins de ocorrência e da versão oficial dos fatos. Até o jargão da polícia acaba sendo, muitas vezes, absolvido e usado no dia a dia. Como fugir dessa tendência?
Esta é uma grande luta da reportagem policial. Inegavelmente, você assimila gírias policiais no seu vocabulário, mas nunca deve assimilar comportamentos. Repórter policial e policial são água e óleo. Muita vezes, o repórter pensa encontrar grandes amigos numa delegacia, mas isso é caso raro. Tenho muitos inimigos na área, mas também tenho amigos e sempre deixei claro para eles que no dia-a-dia profissional, devemos nos tratar como profissionais.
Já denunciei pessoas que achava que seriam meus amigos. Os que voltaram, provaram que eram. Os que se afastaram, nunca foram. Quando entrei na área policial, éramos considerados – jornalistas e policiais – farinha do mesmo saco. O tratamento era complicado: um tratava o outro com palavrões, brincadeiras de mal gosto, saiam juntos para beber, era um absurdo.
Certo dia, chamei o jornalista Alberto Macedo (um grande amigo, já falecido) e resolvemos mudar a situação. Nessa ocasião, eu já estava no Jornal da Paraíba, no lugar de Macedo que havia ido para o Correio. Conversamos eu, Macedo, José Cláudio, Clóvis de Melo, José Nilton, Jorge Lobato e Antonio Marcos. Todos repórteres policiais. Resolvemos mudar o comportamento dentro das delegacias. Passamos a exigir mais respeito e, a partir daí, a qualidade do noticiário policial em Campina melhorou muito.
Hoje, ainda temos colegas que fazem vista grossa diante de atrocidades policiais, seja por medo, por “amizade” ou qualquer outro tipo de relação. Mas, isso é um perigo. O feitiço pode virar contra o feiticeiro.
Outra coisa: não devemos nunca acreditar na primeira versão de um fato, ou seja, na versão oficial da polícia, no boletim de ocorrência. O BO deve, sim, servir como início de uma investigação jornalística. O repórter tem um leque de caminhos, de versões, de fatos envolvendo a mesma peça investigatória a serem seguidos. Há casos que a verdade nunca está na mesa de um delegado.
JP: Você fez graves denúncias na década de 90 contra policiais civis de Campina Grande. Fale um pouco sobre esses casos.
As denúncias envolveram não só policiais civis, mas militares e até federais. Há casos que nunca esqueci, pois me marcaram muito. Deixo claro que não existem “os casos mais importantes” que atuei, pois todos foram muito importantes. Existem, os que mais me marcaram, como um caso de tortura dentro do quartel do Corpo de Bombeiros; como vários casos de tortura, que presenciei nas celas e salas da Central de Polícia e os denunciei; casos como a “gangue dos incendiários”; a “máfia do UML”; a “máfia dos cartões de crédito”; a morte de Ana Paula, uma garota de quatro anos vítima de uma desastrosa operação da Polícia Civil, no bairro de Jeremias; a morte do agente Lourêdo; a “chacina da Ramadinha II”, envolvendo a complicada “Operação Bacurau” da PM; o uso da “margarida”, um objeto de tortura usado na Central de Polícia, que dava choques elétricos nos presos.
Nesse caso específico da “margarida”, eu vi um preso sendo torturado, denunciei e acabei sendo, eu próprio, acusado de ter ajudado na tortura. Inclusive, o Diário da Borborema trouxe matéria com essa versão. Mas, são ossos do ofício, que te obrigam a estar muito seguro do que vai escrever e denunciar na área policial.
Enfim, foram diversos casos que a imprensa denunciou e que marcaram a história da reportagem policial em nossa cidade. Agora, se você me perguntar como terminaram todas essas histórias, aí é uma outra coisa. Precisaria de mais tempo para contar como eles ocorreram e os erros e acertos da polícia em cada um deles.
JP: Você foi alvo de muitos processos judiciais. Recebeu apoio do jornal nesses momentos?
Teve ocasião que tinham 12 ou 14 representações criminais contra meu trabalho. O que acontecia? Denunciávamos determinado delegado, agente ou PM. A Superintendência de Polícia ou o Comando da Polícia Militar instaurava sindicância para apurar o que havíamos denunciado. Raras são as sindicâncias que terminam punindo o policial. A maioria inocentava; é o famoso “corporativismo”. Então, com o resultado em mãos, o acusado me denunciava por calúnia, injúria, difamação etc. Nunca foi condenado em nenhum caso.
Atualmente, ainda respondo inquérito na Polícia Federal promovido pelo ex-presidente da Câmara Federal, Inocêncio de Oliveira, por conta de uma reportagem que fiz com um agente da PF, que o acusou de plantar maconha. Vez por outra, a PF chega em minha porta para me intimar aqui em São Paulo. Aqui, também, fui representado por Paulo Maluf, por conta de um artigo que escrevi contra ele, mas tudo foi resolvido.
Nos casos de processos, sempre tive o apoio dos jornais. Bem ou mal, mas não me deixaram na mão, principalmente o Jornal da Paraíba. Algumas vezes fui ouvido sozinho no fórum, mas na minha retaguarda sempre tive os melhores advogados de Campina.
JP: Como foram as ameaças sofridas e os atentados?
Ameaças foram muitas. Por telefone, pessoalmente, por recados via amigos, no trânsito. Todas foram muito covardes. Pressionaram o máximo para que eu saísse da reportagem policial. Como não conseguiram, as ameaças se voltaram contra minha família e pessoas do meu convívio. Pressionavam meu pai e, por isso, discutíamos muito, pois diziam a ele que eu defendia bandidos. Ele se sentia fragilizado, tinha medo que acontecesse algo comigo e batíamos muito de frente por conta dessas pessoas, que infernizaram a minha vida e da minha família.
Meu pai dividia o seu escritório de advocacia com um coronel reformado da PM, que costumava dizer-lhe, conforme me contava: “Líbio (meu pai chamava-se José Líbio Farias), tenta segurar Gil, pois não estou conseguindo segurar os meninos”.
Sofri dois atentados. Um à bala, em frente ao Teatro Municipal, em um domingo à noite. Determinada tarde, um policial tentou sacar seu revólver para atirar em mim dentro da sala do delegado da Infância e da Juventude, um outro ameaçou me matar em um bar e foi contido pelos colegas. Sempre convivi com essas ameaças. Às vezes tinha medo da minha própria sombra. Dormia noite na casa da avó, noite na casa de um amigo, de uma tia... não tinha local certo para dormir.
Vi que a situação estava muito complicada pra mim depois do meu segundo atentado e depois que invadiram o prédio onde eu morava, no Centro, e entraram no apartamento errado. Quebraram quase tudo lá. Eu acompanhei, ouvindo os gritos da moradora e dos bandidos, sentado em minha cama, no escuro, com uma arma na mão. Depois, um policial que fazia parte do grupo e resolveu me revelar quem havia mandado me matar, entre outras coisas, acabou sendo assassinado.
Isso foi em janeiro e até o carnaval, que seria em fevereiro, ele disse que tinha uma lista de mortes. Eu era o primeiro da lista, depois tinha José Cláudio e os delegados Damião Marçal e Olímpio Oliveira, homens sérios da Polícia Civil. Depois que mataram esse cara, vi que a coisa estava brava.
Acionei o secretário de Segurança Pública, na época Pedro Adelson, e o jornal foi orientado para me dar férias até os fatos serem resolvidos. Acabei vindo para São Paulo passar um período e alguns agentes da Civil e PMs foram presos. Era um bando, que tentou aterrorizar Campina.
JP: Por que não parou, mudando de editoria?
Não cogitei, em nenhum momento, esta hipótese. Tive muito medo, mas não adiantava largar tudo naquele momento e nem o faria em momento algum. Tinha que continuar fazendo o meu trabalho. Se me matassem, creio que outros colegas dariam prosseguimento à minha luta. Seria burrice me matarem, pois não iriam resolver muita coisa.
JP: Quando foi embora do Estado? Se tivesse permanecido aqui, acredita que poderia ter sido assassinado?
Com toda certeza, tanto é que não mais voltei para Campina. Na época em que recebi férias do Jornal da Paraíba e vim para São Paulo, iria passar apenas o período em que as coisas se resolvessem. Mas, tudo ficou muito complicado. Um colega jornalista e um amigo policial ouviram, em ocasiões distintas, um delegado tramar minha morte ou armar um flagrante por drogas. Um menor infrator apreendido chegou a dizer que tinha sido contratado para me matar.
Vi que não tinha mais condições de ficar em Campina, se quisesse sobreviver. Voltei, entrei em acordo com o jornal, o superintendente, na época, Mozart Santos, foi muito correto comigo e me deu as contas. Desembarquei em São Paulo para morar no dia 8 de dezembro de 1997, trazendo na bagagem muita saudade e muita decepção por estar deixando minha cidade como se fosse um bandido, para não ser morto pela polícia.
JP: Com que freqüência você vem a Campina hoje? Ainda há receios?
Com menos freqüência do que eu gostaria de ir. Sempre amo retornar a Campina. Receios sempre existem. Todas às vezes que retorno, tenho algum tipo de problema. Em uma das visitas à casa de minha avó (já falecida), isso há três anos, saí de viatura da Polícia Civil, pois tinha um agente penitenciário bêbado, que me viu chegando, querendo me matar. O último problema foi em junho passado, no Parque do Povo, quando um grupo da PM ficou me encarando na barraca onde estava, causando mal estar em todo mundo.
Ainda hoje, quando viajo à Paraíba, minha mãe, que mora aqui em São Paulo, disse que fica rezando, não vendo a hora que eu retorne ao Sudeste. Ela tem muito medo quando estou em Campina.
JP: Pretende voltar a exercer o Jornalismo na cidade? No setor policial?
Pretendo voltar à minha cidade o mais rápido possível. Não quero morrer em São Paulo. Creio que retornando, os receios, as ameaças deverão parar. Mas, não estou preocupado com elas, sim com o jornalismo. Tenho projeto para Campina, que também me fará retornar à reportagem policial. Preciso alicerçar mais este projeto. Brevemente, devo estar retornando.
JP: Analisando hoje, vale a pena enfrentar tudo o que você passou por conta do Jornalismo?